O câncer de ovário é o terceiro mais comum no aparelho reprodutor feminino, ficando atrás do câncer de colo do útero e de endométrio (camada mais interna do útero), segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca). Não ter filhos está entre os principais fatores de risco para a doença.
Esse cenário, porém, de forma alguma deve ser visto como um incentivo para mulheres engravidarem, segundo especialistas consultados pela reportagem. Essa é uma decisão pessoal e existem outras formas de prevenção. Além disso, a origem e as causas da doença ainda estão sendo estudadas.
“A gravidez não é uma ‘solução’ ou uma forma recomendada de prevenção. A decisão de engravidar é pessoal, social, emocional e econômica, por isso não deve ser tratada como estratégia médica preventiva”, diz Aumilto Augusto Silva Jr., oncologista do Hospital Santa Catarina, em São Paulo.
O que explica essa relação?
A explicação mais aceita é a hipótese das ovulações repetidas ou incessantes. O que é isso? A cada ciclo menstrual, o ovário libera um óvulo, o que envolve pequena ruptura, inflamação local e reparo celular — o processo de “conserto” do tecido após uma pequena lesão.
Ao longo de muitos anos, essa repetição pode aumentar o risco de alterações nas células. Durante a gravidez, esse processo é interrompido. Sem ovulação, o ovário deixa de passar por essas pequenas rupturas mensais, o que ajuda a explicar por que mulheres que tiveram mais gestações tendem a ter menor risco de desenvolver a doença.
Mas a origem dos carcinomas ovarianos ainda é tema de debate na comunidade científica. Segundo Flávia Miranda Corrêa, consultora médica da Fundação do Câncer, a hipótese da ovulação incessante ganhou força ao longo dos anos, mas pesquisas mais recentes indicam que o câncer de ovário pode não surgir exatamente no ovário.
“Há um consenso crescente de que os carcinomas ovarianos derivam em grande parte de células originadas em tecidos extra ovarianos (ou seja, que surgem fora do ovário). Essa mudança de paradigma em relação às origens do câncer de ovário tem importantes implicações para estratégias de prevenção e detecção precoce", afirma.
Quais são as formas de prevenção?
Para mulheres que decidiram não engravidar, algumas estratégias podem ajudar a reduzir o risco de câncer de ovário, que deve registrar 8.020 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Entenda:
- histórico familiar: saber se há casos na família é um passo importante, já que parte dos tumores está ligada a fatores hereditários, ou seja, alterações genéticas que podem ser passadas de geração em geração. Segundo o Inca, esses casos correspondem a cerca de 5% a 10% do total .
- genética: algumas dessas alterações acontecem em genes como BRCA1 e BRCA2. Genes são trechos do DNA que funcionam como “instruções” para o funcionamento das células. Quando sofrem mutações (alterações nessas instruções), podem aumentar o risco de câncer. Por isso, em alguns casos, pode ser indicado fazer testes clínicos para identificar essas alterações, de acordo com especialistas.
- contraceptivos orais: o uso de anticoncepcionais também é uma medida de prevenção porque reduz o número de ovulações ao longo da vida. “Há um efeito protetor que persiste por até 20 anos após a interrupção do uso e que é observado tanto em mulheres de risco padrão quanto em populações de alto risco (isto é, portadoras de mutações em BRCA1 ou BRCA2)”, explica Corrêa.
- peso: o excesso de peso está associado a um aumento pequeno, mas relevante, no risco de alguns tipos de câncer de ovário. “Recomenda-se também manter peso corporal saudável”, diz Cristiano Guedes Duque, oncologista do Hospital São Vicente de Paulo, no RIo de Janeiro.
- endometriose: a endometriose é uma condição em que células semelhantes às do endométrio crescem fora do lugar, como nos ovários. A condição, segundo Silva Jr., está associada a maior risco de alguns subtipos de câncer de ovário. Por isso, é importante investigar e acompanhar com exames quando houver suspeita.
Sintomas do câncer ovário
Geralmente, na fase inicial, os tumores de ovário não causam sintomas, segundo Duque. “Os sinais e sintomas, quando ocorrem, são inespecíficos, ou seja, podem ser devidos a várias outras causas.”
Mas existem alguns sinais de alerta: dor ou inchaço no abdômen e na pelve; dores nas costas ou pernas; problemas digestivos (náusea, indigestão, gases, prisão de ventre ou diarreia); perda de apetite; emagrecimento inexplicado; necessidade frequente de urinar; fadiga ou presença de massa palpável no abdome. Ao observar esses sintomas, a mulher deve procurar atendimento médico
Como é feito o diagnóstico e tratamento?
O diagnóstico do câncer de ovário costuma envolver vários exames feitos em conjunto. O médico começa com o exame ginecológico e pode solicitar também um exame de sangue, que ajuda a indicar a presença da doença.
Também é comum fazer um ultrassom transvaginal para observar os ovários. Outros exames de imagem, como tomografia e ressonância magnética, servem para ver melhor se há tumores e se a doença se espalhou. Em alguns casos, é necessária uma cirurgia com retirada de um pequeno pedaço do tecido (biópsia) para confirmar o diagnóstico.
O tratamento varia conforme o tipo e o estágio do câncer, além das condições da paciente. Na maioria das vezes, o primeiro passo é a cirurgia para retirar o tumor. A quimioterapia também pode ser usada: depois da cirurgia, para diminuir o risco de o câncer voltar, ou antes, para reduzir o tamanho do tumor e facilitar a operação.









